Os Desafios Invisíveis da Educação Física Escolar: o espaço que falta, o tempo que some e a criatividade que resiste.

É como fazer mágica — e trágico — na imagem de um professor de Educação Física tentando encaixar sua aula entre as frestas do recreio, a quadra ocupada por uma atividade extracurricular e o ginásio transformado em refeitório improvisado. É o retrato cotidiano de muitas escolas brasileiras, especialmente aquelas que abraçaram o ensino em período integral. A promessa de uma formação mais ampla esbarra, muitas vezes, na falta do essencial: o espaço para o movimento.

Quando o corpo não cabe na escola.

Com o aumento do número de alunos em tempo integral, os espaços físicos — outrora divididos com certa fluidez — passaram a ser disputados como território. Quadras, pátios e salas multiuso se transformaram em arenas de negociação diária. O professor de Educação Física precisa reinventar-se constantemente, planejando suas aulas em função da disponibilidade do espaço, do clima e até das demandas logísticas da escola.

Essa realidade não se trata apenas de uma questão estrutural, mas pedagógica. A falta de locais adequados limita a diversidade das práticas corporais, reduz as possibilidades de experimentação e empobrece a vivência motora dos alunos. O corpo, que deveria ser protagonista, acaba relegado ao papel de coadjuvante — esperando sua vez para se expressar.

O excesso que esvazia.

O ensino integral trouxe um cardápio de oportunidades: oficinas de teatro, música, robótica, clubes de leitura. Todas valiosas, sem dúvida. Mas a sobreposição de horários e a multiplicação de atividades criaram uma nova tensão — o “excesso de boas intenções”. Em meio a tantas ofertas, a Educação Física escolar, por vezes, é vista como um componente facilmente deslocável, adaptável, “remarcável”.

Esse equívoco é perigoso. O movimento corporal não é recreio, nem pausa; é linguagem, é pensamento em ação. Privar o aluno do tempo e do espaço para mover-se é empobrecer seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional.

Espaços desconstruídos: a reinvenção necessária.

Diante da escassez, emerge a inventividade do educador. As paredes tornam-se alvos para jogos de precisão; o corredor, pista de revezamento; a sombra de uma árvore, cenário para práticas de equilíbrio e relaxamento. Os chamados “espaços desconstruídos” — áreas não convencionais, reinterpretadas para o movimento — surgem como resistência criativa diante da limitação.

Mais do que improviso, trata-se de uma pedagogia da adaptação. O professor que transforma um pátio em campo ou um gramado irregular em pista de corrida ensina, na prática, o poder da resiliência, da flexibilidade e da criatividade — valores que ultrapassam qualquer currículo.

Entre o concreto e o simbólico.

A luta por espaço é também uma luta por reconhecimento. Garantir locais adequados para a Educação Física é reconhecer seu papel na formação integral do sujeito. É admitir que o corpo pensa, sente e aprende — e que o movimento é parte essencial da experiência humana.

Talvez o desafio, afinal, não esteja apenas em encontrar um espaço físico, mas em ampliar o espaço simbólico que a Educação Física ocupa dentro da escola. Porque quando o corpo tem lugar, o aprendizado respira.

Considerações

Lembro-me do primeiro colégio que trabalhei no Jardins, com espaço muito bom das salas de aula, porém, duas pequenas quadras – e descobertas. Quando todos os professores de EF estavam dando aula, tínhamos que improvisar nas salas as atividades, e quando chovia então, cheguei a dar aulas nos corredores da escola. Isso aumentou o leque de criatividade consideravelmente e o senso de flexibilidade foi para o teto também, afinal, era por falta de espaço, não por falta de equipamentos ou má vontade dos colegas de profissão.

Não é algo relacionado às escolas públicas, pelo contrário, sempre dei aula em escola de gama alta, e é exatamente por lá que faltam mais espaços. Mais uma vez, materiais tínhamos de sobra, o que não tinha era espaço – algo contrário das escolas públicas – há espaço, mas não há materiais, recursos.

No segundo colégio tinha espaço e materiais, mas não tinha cobertura – então tive insolação em dia de reunião pedagógica. Suava frio, passando mal – um alerta para a administração que teve que tomar providências pós episódio.

Assim caminha os espaços escolares, com certa dificuldade por causa da ascensão do ensino integral, algo que não acontecia nas décadas anteriores. As pessoas começaram a trabalhar mais, os filhos foram ficando cada vez mais tempo nas escolas e assim as atividades foram surgindo, tomando os espaços e aumentando a gama de modalidades. Os números de alunos sobem, mas os espaço ainda se mantém os mesmos, afinal, em uma cidade como São Paulo em que o metro quadrado dos terrenos está cada vez mais caro por causa do crescimento imobiliário, fica cada vez mais difícil de aumentar as escolas, a não ser que seja verticalmente.

Enquanto isso continuamos sendo criativos e flexíveis, para entregar atividades significativas para o desenvolvimento das crianças.

Referências

  • BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ministério da Educação, 2018.
  • LE BOULCH, Jean. Educação pelo movimento: a psicocinética na idade escolar.
  • FONSECA, Vitor da. Psicomotricidade: perspectivas multidisciplinares.
  • KUNZ, Elenor. Transformação didático-pedagógica do esporte.

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