Quais os riscos de usar IA para prescrever treinos?

Esse assunto tocou numa ferida sensível, mistura de ética, técnica e responsabilidade. Criar treinamentos esportivos sem supervisão profissional habilitado (CREF) usando inteligência artificial pode parecer um passo ousado rumo ao futuro, mas esconde muitos riscos (e consequente responsabilidade).

Legalidade e exercício profissional ilegal.

  • No Brasil, somente profissionais devidamente registrados no Sistema CONFEF / CREFs têm autorização para prescrever, orientar e supervisionar atividades físicas, esportivas e afins. CONFEF+1
  • Se alguém oferta programas de treinamento (mesmo que “orientados por IA”) sem um profissional habilitado, pode incorrer em exercício ilegal da profissão de Educação Física.
  • Além disso, entidades de fiscalização (CREF) têm competência para fiscalizar academias, condomínios e ambientes onde há oferta de orientação física, exigindo que haja profissional habilitado no local. CONFEF+2CONFEF+2
  • Eis o primeiro alerta dramático: a legalidade não é algo “opcional para o futuro” — é pedra de alicerce.

Risco de lesões, agravamento e danos físicos.

Aqui entra o lado mais “humano” da história:

  • A IA (no estado atual) pode errar ao interpretar dados, calcular carga de treinamento, prescrever intensidade ou escolher exercícios adaptados a condições individuais (históricos, limitações, lesões prévias) — e isso pode levar a síndromes de overtraining, lesões musculares/ articulares, microtraumas acumulativos etc.
  • Algumas revisões apontam que a IA pode identificar padrões de risco (frequência cardíaca, carga muscular) e prever eventos adversos, mas ainda dependem de supervisão humana para validação. PMC
  • Em artigos emergentes, observa-se que programas de treino “bonitos no papel” podem ser perigosos se não levarem em conta nuance biomecânica, fadiga subjetiva, vinculações psicofisiológicas — e a IA sozinha não tem o tato humano para “sentir” o aluno no momento. Rolling Out

Ou seja: a IA pode dar uma receita, mas não sentir se o aluno está cambaleando, tenso, com dor ou fadiga — e esse gap pode gerar consequências duras.

Ética, responsabilidade e negligência.

  • Se alguém seguir um programa de treino gerado por IA sem supervisão e sofrer uma lesão, quem responde? O “criador da IA”? O usuário? O ofertante?
  • A oferta de programas esportivos (pagos ou gratuitos) sem o respaldo de profissional qualificado pode ser entendida como negligência ou omissão se houver dano.
  • Há também o risco de má reputação, processos judiciais e danos sociais: pessoas vulneráveis podem confiar cegamente na “inteligência” dessa ferramenta, acreditando que é infalível.

Limitações técnicas e falhas da IA.

  • IA sofre de “alucinações” – pode gerar saídas que parecem coerentes, mas não têm respaldo técnico ou científico. Security Industry Association
  • Modelos de IA dependem dos dados com os quais foram treinados: se o dado for enviesado, limitado ou não contemplar certa população (idade, patologias, características corporais), o “treino” pode ser inadequado.
  • Em cenários não contemplados no treinamento, a IA pode colapsar ou gerar erro.
  • Falhas de sensores (se estiver integrando wearables), mau uso ou mau diagnóstico dos sinais físicos (batimento, variabilidade, fadiga) agravam o risco.

Desumanização do processo e limitação de adaptação subjetiva.

  • O ser humano que treina tem humor, dias “difíceis”, estresse, sono ruído, lesões pequenas, motivação oscilante — um bom profissional de Educação Física “sente” isso, adapta na hora. A IA, embora possa usar dados, não capta nuances subjetivas tão bem.
  • Pode-se perder o vínculo, a empatia, o ajuste fino, a escuta ativa — todo o laço humano que muitas vezes faz diferença entre um exercício desistido e um progresso consistente.

Impacto sobre a imagem e confiança da profissão.

  • Se muita gente adotar “IA sem supervisão”, corre-se o risco de banalizar o papel do profissional humano — ver o profissional como dispensável — e isso pode enfraquecer o valor social da Educação Física.
  • Também pode gerar conflito regulatório: CREFs e entidades profissionais reagirão (e já reagem) ao uso indevido de automação para fins de prescrição sem respaldo técnico.

Possível caminho híbrido (a ponte entre tecnologia e responsabilidade).

Para não descambar ao risco, vislumbro uma via poética e técnica:

  • Use a IA como auxiliar, co-piloto, não comandante. Que a IA faça sugestões, análise de dados, monitoramento, mas que o profissional valide, ajuste e supervisione em tempo real.
  • Registrar relatórios de supervisão humana, assinatura digital do profissional que “receitou” ou aprovou.
  • Educar os usuários: deixar claro que aquele programa é uma ferramenta, não uma garantia infalível.
  • Respeitar as normas legais e manter-se registrado no CREF.
  • Formular termos de uso e isenção com transparência (resguardando a responsabilidade do profissional).

Opinião | Minhas considerações

Fiz uma periodização de doze semanas para iniciantes em corrida para distância de meia maratona, e por curiosidade, coloquei prompt de criação de treinamento no ChatGPT. Ele criou uma estrutura legal de disponibilização de informações, mas não mediu as capacidades do indivíduo, ou seja, eu mudei TODO o treino.

Essa experiência de usar a IA é simples para quem é leigo e facilita no sentido monetário, afinal, não há investimento em profissional registrado para criar uma série, porém, a IA não tem como mensurar o quanto será intenso para o praticante. Pelo que pude perceber a intensidade era consideravelmente alta, e fatalmente um aluno iniciante iria se lesionar no decorrer das sessões, isso se já não se lesionasse logo de cara.

O que o profissional pode (e deve fazer) com a tecnologia em prol da facilidade de prescrição de treinamentos é criar as estruturas do documento, criar imagens ilustrativas (para não usar imagens com direitos reservados) e assim usar a IA como complemento de uma periodização bem montada. A seguir é uma imagem que eu criei de um aparelho, pouco divulgado pelos profissionais, então utilizo para esta finalidade:

AI Generated Image – by ChatGPT (GPT-5) / OpenAI (October, 2025)

Este é o aparelho que prescrevo o exercício de Hiperextensão Lombar, que está sem falta em todos e quaisquer treinos que prescrevo. Usar as IAs para ilustrar à distância é um grande aliado, além de mecanismos de buscas de referências bibliográficas quando surgem dúvidas específicas, e isso linca à nossa experiência e a facilidade de entrega de prazos de treinos.

De resto, não devemos seguir cegamente treinos de IAs sem supervisão de profissional devidamente registrado no CREF.


One response to “Quais os riscos de usar IA para prescrever treinos?”

  1. Carlos Henrique Biscuola de Souza Avatar

    A dor muscular ou articular pode ser tratada com Seitai, que restaura o alinhamento da coluna, alivia tensões e melhora a mobilidade.

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